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(in)sensatez

por Catarina Duarte

(in)sensatez

por Catarina Duarte

Seg | 21.03.16

Manicure.

CD

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Dividimos sempre a mesa da manicure. O seu perfume é adocicado, demasiado forte, demasiado floral, demasiado intrometido. Sei que todas as semanas a encontro pois, como já disse, dividimos a mesa da manicure. As unhas são pintadas, sempre, de vermelho. Sangue. Tenta, sempre também, com a mão livre, equilibrar o livro que lê: diferente - todas as semanas.

As unhas estão, finalmente, pintadas e o cheiro a verniz, ainda fresco, fere-me. As jóias são pesadas mas conseguem ser discretas. Definem arabescos que, pela sua forma, fornece-lhes, às jóias, um aspecto ainda mais arredondado do que aquele que, naturalmente, têm.

Sempre tive um certo encantamento por senhoras que se arranjam, enquanto atravessam, discretamente, os setentas – a idade desta senhora não sei mas deve rondar esse mesmo número.

Nas semanas em que a minha agenda não se consegue orientar para que consiga arranjar as unhas, imagino-a, sentada, na mesa que costuma dividir comigo, com o risco dos olhos a condizer com a camisa de seda, cada dia mais enrugada, com os anos a serem, mais uma vez, injustos, a galoparem em vez de caminharem.

Gosto de quem, com a idade a avançar, se aperalta. Gosto do conforto dos casacos quentes, gosto dos lábios marcados, gosto dos olhos adornados. Gosto das jóias de família, pesadas e com presença. Deixam sempre cheiro por onde passam. Deixam sempre rasto.

Quero-me a envelhecer assim: com tempo para as minhas unhas, com tempo para o meu perfume, com tempo para os meus livros e com tempo para dividir, semana após semana, a mesa com a juventude.