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(in)sensatez

por Catarina Duarte

(in)sensatez

por Catarina Duarte

Sab | 17.06.17

Não gosto da palavra falecer.

CD

Não gosto da palavra falecer. É redonda, enrola na língua e na sua essência. Normalmente, não a utilizo. Mas, ocasionalmente, mais para defender sensibilidades alheias, sou obrigada a usa-la. Acho-a, se quiserem, uma palavra cínica, uma junção de letras que pretende apaziguar o que, de facto, traduz. Uma palavra que quer dobrar a realidade, dobrar a força, apaziguar o ânimo, embalar os sentimentos. Não gosto da palavra falecer. Prefiro a forma incisiva e concreta que enche a palavra morrer. Os "erres" gravam a força do que significa, rematando a dor, fortalecendo o acto. Morrer significa morrer. Por muitas voltas que se dê: morrer significa morrer. Não há palavras suaves para suavizar a mais dura das verdades. Não há pés levantados, saltitando receosos, com medo de chocar. É solidão, escuridão, nudez, frieza e gravidade. Tal como a morte é. Tal como a morte se quer. Tal como a morte existe. Morrer significa morrer.