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(in)sensatez

por Catarina Duarte

(in)sensatez

por Catarina Duarte

Ter | 26.06.18

O melhor do mundo falha.

CD

quaresma ronaldo.jpg

 

Claro que é importante, para sermos considerados "o melhor do mundo", termos jeito para jogar à bola, para escrever ou para pintar, é o pontapé de saída, utilizando a gíria futebolista, para o sucesso, mas não é tudo. Nunca é tudo.

 

Há quem diga que o Messi é melhor jogador do mundo, como se a definição de “melhor” fosse algo linear e fácil de explicar, como se para classificar como “melhor” houvesse unicamente uma única opção, como se aquele que é “melhor” fosse aquele que tem mais características inatas, que lhe conferem a possibilidade de, de facto, o ser.

 

Ter apenas muito jeito para algo pode remeter-nos para o canto dos medianos e até dos medíocres. Ter apenas muito jeito para algo não nos dá medalhas, nem taças, nem o título de melhor do mundo. O exemplo claro disso pode ser Quaresma, entre tantos outros que passam pelo futebol, que passam pela escrita ou pela pintura.

 

Fico sempre ligeiramente incomodada quando apontam o dedo ao melhor do mundo no futebol, que, por acaso, é português, e que, por acaso, se mata a trabalhar para superar recordes atrás de recordes. Este incómodo que sinto pode, eventualmente, ter a ver com a minha noção de que, em Portugal, o trabalho não é valorizado e que somos ótimos a por defeitos em quem é bom, como se, ao mandar abaixo, nos estivéssemos, de alguma forma, a enaltecer.

 

É triste que tenhamos o melhor do mundo e que isso, para muita gente, não seja suficiente.

 

Fiquei triste pelo facto do melhor do mundo ontem ter falhado um penálti e jamais na minha vida ficaria feliz porque “isso prova que ele não é assim tão bom”. Porém, julgo que esta situação ainda o humanizou mais: ele, apesar de pertencer à secção dos especiais, falha.

 

É um exemplo concreto para quem quer também ser o melhor, um exemplo prático que nos explica que, para lá chegarmos, erramos pelo caminho, e que, no meio do que somos, no meio do nosso corpo trabalhado e da nossa cabeça bem agrupada, há sempre espaço para falhar porque é nessas falhas que nos vamos solidificando.

 

É mesmo nessas falhas que nos vamos construindo e verificando que o rótulo do melhor do mundo (tendo algumas características inatas que o permitam) pode estar mesmo à distância de todos.

 

E, sim, continua a ser triste que tenhamos o melhor do mundo e que isso, para muita gente, continue a não ser o suficiente.

 

Afinal, ele até falha penáltis.