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(in)sensatez

por Catarina Duarte

(in)sensatez

por Catarina Duarte

Ter | 09.02.16

O meu Carnaval.

Catarina Duarte

Devia ter aproveitado o Carnaval, ter dado a volta às máscaras e rebuscado a “joaninha” ou a “bruxa” de outros tempos.

Devia ter exagerado da maquilhagem, fingido que estava no Rio de Janeiro, encher-me de caipirinha e guaraná e ter sambado a noite toda.

Devia ter ido para o meu Carnaval de todos os anos, para aquele local à beira-mar plantado, em forma de “u”, onde o cheiro a peixe se funde com o suor do desfile dos palhaços, enquanto se reza para que a chuva não dê a volta aos planos.

Devia ter rumado para o meu Carnaval invernoso, onde as fantasias são sempre escolhidas a puxar o quente, para que a maresia fria do fim da noite não nos constipe.

Devia mas não fui.

O meu Carnaval revestiu a forma do livro do “Sistema Fiscal Português”. Um livro verde, espesso, de letra pequena. IVA, IRC, IRS, e todos aqueles “I” que mudam quase anualmente.

O meu Carnaval foi passado na minha sala de jantar, onde os artigos com direito à dedução superiorizaram as caipirinhas não bebidas, os apuramentos da matéria coletável superaram as músicas brasileiras não dançadas, e as deduções à coleta suplantaram as conversas fiadas embaladas pelo suave zig-zag do álcool.

O meu Carnaval foi passado a estimar mais-valias e qual o impacto do seu não reinvestimento no imposto a pagar.

O meu Carnaval vestiu-se de preto e branco e a única cor que lhe permiti foi a caneta marcadora amarela, que utilizei para evidenciar artigos relevantes.

Este ano, precisava, mais do que nunca, do meu Carnaval. E, o pior, é que ele já acabou.

Até para o ano, máscaras! As únicas a que nos permitimos vestir (e apenas por quatro dias por ano!), e que nos ajudam a esquecer a verdade matemática dos nossos dias.