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(in)sensatez

por Catarina Duarte

(in)sensatez

por Catarina Duarte

Ter | 19.12.17

O rapaz que esperava.

CD

No outro dia, aconteceu-me uma situação algo estranha.

 

Entrei num determinado restaurante onde temos que pedir ao balcão e, só depois do pedido estar terminado, é que nos dirigimos para a nossa mesa. Eu estava, obviamente, de pé. Atrás de mim, as mesas estendiam-se todas. O restaurante não é muito grande nem, na verdade, muito pequeno: deve sentar umas cinquenta pessoas mas, àquela hora, só lá estava eu e mais um rapaz sentado numa das mesas mesmo atrás de mim, de costas para a janela, sem nada à sua frente excepto um caderno e uma caneta.

 

Vim a perceber depois que esperava por um amigo ou, talvez, por um colega ou cliente, dada a cerimónia que senti fazer quando o outro chegou, atrasado, desculpando-se. O do caderno referiu, muitas vezes, que não fazia mal, que acontecia a qualquer pessoa.

 

Enquanto esperava pelo amigo ou colega ou cliente, escrevia e desenhava num caderno. Não estava alheado do mundo, levantava a cabeça muitas vezes, até. Em busca, talvez, de inspiração, não faço ideia.

 

O rapaz que esperava fazia, exactamente, aquilo que eu faço, enquanto espero por algo ou alguém: saco do meu caderno e escrevo o que vejo, as palavras que ouço, as expressões ou os nomes que me interessam.

 

O rapaz que esperava viu-me entrar, esperar de pé a minha vez de ser atendida, achou, provavelmente, interessante o meu casaco comprido ou as minhas botas novas. Considerou, talvez, o meu timbre engraçado ou estranho, e que a conversa que se desenhou entre mim e o senhor que registava o meu pedido tinha potencial de tão simples que era.

 

E escrevia. Senti-me observada, registada, até. Mas percebi. Na realidade, é assim que, todos os dias, alimento as minhas frases.

 

No final do dia, temos que ser uns para os outros.