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(in)sensatez

19
Dez17

O rapaz que esperava.

CD

No outro dia, aconteceu-me uma situação algo estranha.

 

Entrei num determinado restaurante onde temos que pedir ao balcão e, só depois do pedido estar terminado, é que nos dirigimos para a nossa mesa. Eu estava, obviamente, de pé. Atrás de mim, as mesas estendiam-se todas. O restaurante não é muito grande nem, na verdade, muito pequeno: deve sentar umas cinquenta pessoas mas, àquela hora, só lá estava eu e mais um rapaz sentado numa das mesas mesmo atrás de mim, de costas para a janela, sem nada à sua frente excepto um caderno e uma caneta.

 

Vim a perceber depois que esperava por um amigo ou, talvez, por um colega ou cliente, dada a cerimónia que senti fazer quando o outro chegou, atrasado, desculpando-se. O do caderno referiu, muitas vezes, que não fazia mal, que acontecia a qualquer pessoa.

 

Enquanto esperava pelo amigo ou colega ou cliente, escrevia e desenhava num caderno. Não estava alheado do mundo, levantava a cabeça muitas vezes, até. Em busca, talvez, de inspiração, não faço ideia.

 

O rapaz que esperava fazia, exactamente, aquilo que eu faço, enquanto espero por algo ou alguém: saco do meu caderno e escrevo o que vejo, as palavras que ouço, as expressões ou os nomes que me interessam.

 

O rapaz que esperava viu-me entrar, esperar de pé a minha vez de ser atendida, achou, provavelmente, interessante o meu casaco comprido ou as minhas botas novas. Considerou, talvez, o meu timbre engraçado ou estranho, e que a conversa que se desenhou entre mim e o senhor que registava o meu pedido tinha potencial de tão simples que era.

 

E escrevia. Senti-me observada, registada, até. Mas percebi. Na realidade, é assim que, todos os dias, alimento as minhas frases.

 

No final do dia, temos que ser uns para os outros. 

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Biografia

Sou autora do livro infantil “Maria Bolinhos – no Reino da Maravilhosa Doçaria Alentejana” e do blog insensatez.blogs.sapo.pt. Escritora compulsiva: a minha vida é absorver tudo aquilo que vejo e tudo o que ouço. Se estão comigo há um certo risco de se tornarem inspiração da minha próxima personagem :) mas, calma!, não fujam já! Dou Workshops de Escrita Criativa a crianças e a adultos - são boas horas que sempre voam embaladas pelo fluir frenético da escrita. Devoro arte, sou constantemente inspirada por ela, nas suas mais diversas formas: livros, pintura, música, cinema, fotografia. Mas, também, jardins, praias, arestas dos prédios recortados da minha Lisboa: inspiro a luz que escorre pelas suas paredes, expiro um texto completo de incertezas. Não passo sem café, sem livros, sem as minhas viagens mas, especialmente, sem o ar livre da minha cidade, a minha maior inspiração. Tenho 32 anos, vivo em Lisboa com o meu marido e com as minhas palavras preferidas.

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