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(in)sensatez

por Catarina Duarte

(in)sensatez

por Catarina Duarte

Sab | 17.03.18

Opinião: Call Me By Your Name.

CD

Call me 1.jpg

 

Depois de vos falar deste filme, dou por encerrada a minha viagem pelos filmes dos Óscares de 2018. E, claro, fechamos com chave de ouro.

 

Se eu tivesse que escolher uma palavra para caracterizar o filme que vos trago hoje, ela seria BELO. Vamos falar do Call Me By Your Name, um daqueles filmes que nos entra pelos olhos adentro, e fica e se instala e se aninha e não desaparece.

 

À medida que os meus dias vão passando, mais eu gosto deste filme. É daqueles filmes que permanece, que não morre e que se torna mais consistente à medida que a nossa vida vai rolando por onde os dias a levam. Ocasionalmente, lembro-me de uma cena que me enterneceu ou recordo-me de uma frase que gostei.

 

É um filme profundo mas é também um filme leve, muito leve, muito limpo e, claro, belo.

 

São vários os pontos, por onde se consolida este filme:

 

Primeiro, passa-se em Itália, neste país-fetiche, onde as paisagens nos são familiares e onde a comida nos consola, neste país onde as pessoas conversam com a voz alta, aos gritos, muitas vezes, mas não estão chateadas, reforçando mesmo aquela mania que temos de aumentar o volume para nos fazermos ouvir.

 

Depois, refere-se a um período que, para muitos de nós, já se encontra muito longe: a adolescência. O protagonista tem 17 anos e vive as férias de verão, naquela terra do norte de Itália.

 

Quantos de nós se lembram das nossas férias adolescentes e dos espíritos livres em que nos tornávamos nesses meses?

 

Essa leveza de verão é-nos muito próxima e, apesar de já se encontrar muito longe, este filme relembra-nos as saudades desse tempo. Eu senti muitas.

 

Depois, o mundo gira à volta dos mistérios do amor de Elio (Timothée Chalamet – que faz uma interpretação bestial). O amor e os seus mistérios podem mesmo ter vários prismas. E calhou, naquele verão regado a banhos no tanque e a músicas de guitarra, que tivesse a forma de um amor homossexual.

 

Se é relevante, para mim, este amor ser homossexual, para dar consistência ao filme? Não. Não é. Porque não é de homossexualidade que ele fala. É de Amor e de descoberta. Mas, especialmente, de Amor.

 

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Elio vai construindo a sua relação com Oliver (Armie Hammer), o adulto bonito, penteado e escultural, e, à medida que os gestos, olhares e as desculpas para estarem juntos aumentam, vamos torcendo para que a relação se desenrole.

 

Engraçado porque a personagem de Oliver está - de uma forma bastante subtil – muito bem desenhada: ele é a visita de casa, ele é o adulto, ele é o estável. E é curioso assistir à forma como ele se vai amanteigando perante o seu Elio, sempre de forma subtil, como são as transformações realistas.

 

Os sons também são um elemento muito presente no filme: o som das bicicletas a rolarem na gravilha ou da água no tanque – lembram-se de andarem de bicicleta, ao sol, no verão desenhado em tons amarelos? É também disso que este filme fala.

 

Gostei muito de uma cena (uma cena que, na verdade, tinha tudo para eu odiar) onde, o pai de Elio, lhe diz que sabia da relação dos dois. Gostei muito do consolo que dá ao filho, da forma como escolhe as palavras e da dimensão das mesmas, mas gostei, principalmente, da importância que dá ao primeiro amor do filho. Comovente.

 

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Gostava ainda de referir que a banda sonora maravilhosa, suave como as imagens que nos chegam, embrulha o filme e nos entrega como se de uma obra de arte se tratasse.

E, o melhor, é que é mesmo disso que se trata.

 

Ouçam e deixem-se ir.