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(in)sensatez

por Catarina Duarte

(in)sensatez

por Catarina Duarte

Qua | 04.12.19

Quartas-feiras.

Catarina Duarte

Reuniam-se sempre às quartas-feiras, às seis e meia da tarde, e para além de Deus, e dela também, poucos sabiam o que precisava de fazer para lá estar a essas horas. Fugia do escritório às seis em ponto, voava até ao autocarro, está certo que era apenas uma única paragem, mas, depois, ainda tinha o metro, onde as paragens passavam a três, e, depois, mais dez minutos a pé. Se tudo fluísse como esperado, chegava cinco minutos atrasada; caso contrário, nem valia a pena ir.

 

Era sempre o mesmo desatino, mas também sempre a mesma incógnita se, contas feitas, o esforço iria valer a pena. Porém, nunca cancelava, nunca aceitava nela que “esta quarta-feira não vou, estou cansada”.

 

Durante o tempo que ali ficava, uma hora certinha, falava-se do que mais gostava e do que não fazia sem ser ali: ler. Sim, aparentemente, algo tão simples, que se resume a uma palavra tão curta: ler. Sim, aparentemente, algo que não exige grandes segredos; afinal, é apenas ler. E liam. Liam mesmo! Liam durante quinze minutos, em silêncio, para eles próprios, à sua velocidade, à velocidade de cada um que, nisto da leitura, tal como em muitas outras coisas da vida, pouco interessa como cada um faz, desde que o desfecho seja igual para todos. E, depois, voltavam a ler mais um pedaço do livro escolhido, agora em voz alta, a uma velocidade que todos pudessem acompanhar, para depois debaterem, todos juntos, o pedaço lido e ouvido. A seguir, começava a conversa, que não se esgotava nos trinta minutos dedicados ao debate, mas que, claro, tinha que terminar, porque regras são regras e estão lá para serem cumpridas.

 

Estavam agora a ler o livro “A Mulher Certa”, de Sándor Márai, e o excerto daquela quarta-feira dizia: “Um dia, a vida familiar coagula. (…) Fazemos visitas e recebemos convidados, mas tudo isso esconde solidão. E enquanto nesta solidão respira uma expectativa, e nos corações e nas almas se conserva a esperança, a vida ainda é suportável, vive-se… não muito bem, não de forma digna, mas vive-se, ainda faz sentido, pela manhã, dar corda à máquina para aguentar até à noite. (…) É muito difícil resignar-nos ao desespero que é estarmos sós, terrível e desesperadamente sós. São muito poucos os que aguentam saber que não há remédio para a solidão das nossas vidas.”

 

Tinha a sensação que, por vezes, as letras gravadas nos livros que lia, mais não faziam do que permitir o choque frontal com a realidade das nossas vidas, aquele momento em que não existia escapatória possível, onde a verdade, toda ela, estava pintada, nua e crua, sem qualquer tom suave que nos fizesse desviar do essencial. Tudo existia naquele retângulo compacto e recheado de folhas.

 

Quando terminava o encontro, endireitava caminho até casa, para retomar os minutos que, em teoria, eram dela, mas que, na prática, teriam que ser partilhados com os seus três filhos: dois menores e um que dividia a idade com ela.

 

Era sempre o mesmo chegar, e, mesmo sem grandes surpresas, não abdicava de, no caminho, pensar em todo o processo que tinha que executar assim que pisava o soalho da sua casa: tacho com água ao lume para a massa, enquanto aquece vai fazer xixi, crianças a saltarem e a pedirem beijos, todas elas, as três (dois menores e um que dividia a idade com ela), colocar massa na água, fritar quatro hambúrgueres, temperar uma salada já previamente lavada, picar uns tomates, cortar, em finas fatias, uma cebola, misturar tudo na salada, não abdicar do mel, e do sal fino, e das sementes por cima, tudo para a mesa. Meia hora depois, duas das crianças seguiam para a cama. A outra, a que dividia a idade com ela, ficava a ajudar a arrumar a cozinha. Sempre a ajudar.

 

Depois da cozinha arrumada, eram sempre as mesmas meias para descobrir o par, as mesmas toalhas turcas para dobrar, as mesmas camisas para passar (há peças de roupa que têm sempre prioridade face a outras).

 

Às quartas-feiras era sempre assim e ela saiba-o bem: se queria ter direito aos seus momentos de leitura, depois tinha que correr para apanhar todos os minutos que lá perdeu. E agradecer, agradecer sempre, porque, no final do dia, no meio do jantar a ser feito, das meias para descobrir o par, das toalhas turcas para dobrar e das camisas para passar, até era uma sortuda, afinal, tinha sempre quem a ajudava; não fazia sozinho; mas ajudava. Era a criança maior, aquela que dividia a idade com ela.

 

(texto escrito em fevereiro de 2019)