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(in)sensatez

por Catarina Duarte

(in)sensatez

por Catarina Duarte

Qui | 19.07.18

Quinto esquerdo.

CD

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 Fotografia do João Farinha (sigam o seu blog - não se vão arrepender!)

 

Com a ponta da chave, alguém chegou lá e rasgou-o. A frase que surgia, após o rasgão, era “o 5.º esquerdo é gay”. O autocolante da inspeção periódica do elevador já não estava intacto.

 

É preciso muito talento para, com apenas uma chave, riscar o autocolante duro das inspeções periódicas e fazer não uma, não duas, não três, mas, sim, quatro palavras, mais um número, e uma bolinha pequena a seguir ao número, de forma a que não se fique com qualquer dúvida sobre o que se pretende transmitir.

 

Em tempos, no decorrer de um trabalho de faculdade, dissera, à Alice, o João, que ela era mesmo bonita. Ora, a Alice não é nem nunca foi bonita. Não sabe se alguma vez o será mas, provavelmente, não. O seu nariz é fino e curvado e a sua cara é demasiado redonda para o seu nariz fino e curvado. Nesse dia, a Alice ficou desconsolada pelo facto do João lhe ter chamado bonita; ficou a pensar, inclusive, que ele não via bem e ponderou, naquele momento, as opções que tinha ao seu dispor para lhe explicar que não, que não era bonita. Ainda respondeu, algo do género: eu não sou bonita. Mas o João já estava a sorrir.

 

Agora, no autocolante da inspeção periódica do elevador, estava escrito que o 5º esquerdo era gay quando era ela quem morava no 5º esquerdo e não, ela não era gay. Ficou desconsolada, outra vez, com o mesmo tipo de desconsolo que se apoderou dela quando lhe chamaram de bonita: ela não era bonita, nem gay.

 

Em tempos, num dia particularmente agitado, a Alice foi ao café que fica na esquina da sua rua. Era o café onde ia todos os dias. Mas, nesse dia, porque nada lhe corria bem, embrulhada no que ainda tinha para resolver e já serem nove da noite, tão embrulhada que nem questionou a razão pela qual o café ainda estava aberto àquela hora, tão embrulhada que, quando lá chegou, pediu um café não notando que, àquela hora, mais valia não beber café, tão embrulhada que virou costas, após bebê-lo, sem agradecer. A Zélia, vizinha do 1º direito do seu prédio, atirou para o outro lado do balcão: esta rapariga é mesmo mal-educada. A Zélia não conhece a “regra dos 10 metros ou dos 10 segundos”, que nos explica que, quando queremos comentar algo sobre alguém, devemos deixar que essa pessoa se afaste, pelo menos, 10 metros ou, então, que devemos esperar, pelo menos, 10 segundos e, como não conhece essa regra, a Alice ouviu e seguiu para casa desconsolada. Ela não era mal-educada. Estava apenas cansada, embrulhada em temas que ainda tinha para resolver e já serem nove da noite e esqueceu-se de agradecer.

 

A Alice, com este episódio no café, lembrou-se de uma vez em que a sua mãe lhe disse que ela era tão inteligente por ter tido quase 100% no teste de história de arte. Ela ficou, claro, desconsolada porque sabia, sabia mesmo que, de inteligente, ela não tinha nada. Nessa vez, apenas estudou muito porque não lhe apetecia ver televisão. Dessa vez, disse: eu só estudei muito porque não me apetecia ver televisão. Mas a mãe já estava a abanar a cabeça, provavelmente a pensar, tão modesta que a minha filha é. Não era modesta. Nem inteligente.

 

Ao fim de um mês, “o 5.º esquerdo é gay” ainda se erguia do autocolante da inspeção periódica do elevador, tal como, a frase sobre a inteligência que a Alice nunca teve, que a sua mãe lhe tinha dito, se encontrava encastrada na sua memória. Não vamos falar da beleza nem na falta de educação que também nunca existiram. Esses também se encontram bem presentes nas sementes do seu ser.

 

Estes episódios, bem como muitos outros que lhes seguiram, cravavam, na Alice, a sensação de quer era uma fraude e que se sentia a enganar toda, mesmo toda a gente.

 

Ponderava, sempre que ouvia alguém tecer algo de errado sobre a sua pessoa, explicar-lhe que não, que não era nem gay, nem bonita, nem mal-educada, nem inteligente, nem modesta. Tinha imensa necessidade em justificar uma mensagem mal passada. Por vezes, ainda tentava, mas saiam-lhe sempre frases fracas, que perdiam toda a sua fraca potência logo após a primeira palavra ser dita. Outras vezes, seguia caminho. Mas nunca deixava de pensar nisso.

 

A Alice nunca deixava de pensar nisso. Nunca.

 

Até que um dia percebeu: as pessoas conspiram, imaginam e falam. Umas vezes acertam; na maior parte das vezes, erram. Não interessa explicar qual o ponto verdadeiro.

 

A falsa realidade é, demasiadas vezes, mais interessante do que verdadeira realidade.

 

Assim que percebeu isso, a Alice mudou.

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