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(in)sensatez

por Catarina Duarte

(in)sensatez

por Catarina Duarte

Dom | 21.02.16

Ser escritor.

Catarina Duarte

Não sou escritora e, suponho, também não o serei, nem daqui a uma mão cheia de livros publicados. No máximo, rabisco umas coisas. Se ainda estivéssemos no tempo em que a escrita era criada por meio de papel e caneta, seria essa mesma a expressão a utilizar: rabiscar umas coisas.

Mas, dizia eu, não sou escritora, tal como, verdade seja dita, não o considero qualquer um que publica livros. Escritor é uma profissão composta por camadas, é algo que não basta fazer diariamente, de forma mecânica e rotineira, na tentativa de aprumar o seu ofício num horário completo das nove às seis. Ser escritor é cimentar o prazer das palavras, montadas umas sobre as outras, de forma consecutiva e persistente. É dar provas. Sistemáticas. Consistentes. Obras resolvidas e duradouras. Palavra atrás de palavra, todas elas, as palavras, ordenadas em forma de frases, compondo parágrafos, contos, livros que nos unem ao real significado da palavra literatura. Palavras arremessadas, tantas vezes, à primeira vista sem sentido, mas que, no conjunto, pintalgadas dentro de outras frases, formam histórias poderosas – muitas vezes tão simples. Histórias simples. Escrever é resistir. É viver a resistir. Não deixar que o ambiente molde as ideias, afunile o pensamento e impeça de consumar a palavra escrita. Ser escritor é opor-se ao medo. De forma franca e directa: opor-se ao medo que a palavra seja mais forte do que muitas mentes que por aí andam. Aquele medo que nos impede de escrever o que queremos e nos leva a escrever o que as pessoas, no geral, querem ler. Ser escritor é fazer um pacto com ele próprio, é fazer prevalecer a honestidade acima de qualquer ideia. É deixar, tantas vezes, ou diria melhor, quase sempre, ou melhor ainda, porque não sempre?, o coração tomar conta do cérebro que, por sua vez, articula as palavras que jorram em catadupa, umas atrás das outras, na elaboração de uma ideia. É fazer desta união algo perfeito, para que estas ideias saiam sempre de onde devem sair: cá de dentro. Sem filtros. Sem medos. Ser escritor é reagir ao meio. É usar a arte – a arte de escrever – como forma de mudar. Resistir e mudar. Escrever é ter coração. É ser forte. É não ter medo. Escrever é resistir. É viver a resistir.

Leio muito, conheço muitos que escrevem. Conheço poucos escritores.

Enviaram-me esta imagem e, pese embora não me considere “escritora”, não deixei de lhe achar piada. Reconheço-me na ilustração com o mesmo nome. Apenas substituía “escritora” por “pessoa que rabisca umas coisas”.

 

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Bom domingo (o que sobra dele) :) 

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