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(in)sensatez

18
Fev18

Conto #4 O senhor que morria.

CD

Imagem o senhor que morria.jpg

 

Até ao dia em que ele foi ter comigo ao atelier, eu e o senhor Joaquim nunca tínhamos trocado uma palavra, como se fosse preciso, em alguma parte do mundo, falar para nos entendermos.

 

E os dias rolavam, essas bolas escorregadias, e faziam-nos os favores necessários para nos cruzarmos, eu e ele, um senhor com idade para ser meu avó e eu, claro, uma miúda, já mais a atirar para mulher, com idade para ser sua neta.

 

O senhor Joaquim, para além da idade para ser meu avô, tinha também um nome que era igual ao dele. Eu não o sabia, nem do nome, nem tão-pouco da sua idade, e nós, ao longo de quatro meses, fomo-nos cruzando, às terças-feiras, no café onde eu tomava a minha bica de todos os dias, e ele o seu religioso abatanado das terças-feiras.

 

Dizia sempre o seu "bom dia" tremido, encaminhava-se para a mesa mais resguardada do café a seguir à mesa que, de facto, era a mais resguardada do café e evitava fixar o seu olhar em parte alguma, exceto nos meus olhos.

 

Um dia, o Augusto perguntou-me, enquanto me tirava uma bica (que, nessa manhã, como, de resto, em todas as outras, lhe pedi curta):

 

- Onde trabalha agora, Custódia?

- Lá me consegui despedir do balcão e montei a minha empresa de joalharia. Quer dizer, ainda não se pode chamar propriamente uma empresa… Neste momento, ainda é mais um atelier, onde faço uns desenhos e moldo uns metais.

- Ficou pelo Chiado?

- Sim, sim. Consegui uma lojeca de rua, numa ruela que dá para a Rua da Madalena.

 

Era terça-feira.

 

O Augusto depois de pousar, no balcão, os pires com as chávenas com café, dava-lhes sempre um toque para garantir que a chávena encaixava no buraquinho construído para o efeito. E, assim que eu acabava a minha bica curta, bebida religiosamente de pé, com o cotovelo apoiado, o Augusto não hesitava, e dava sempre o mesmo toque no meu pires para garantir que a chávena estava encaixada onde devia estar, só depois é que levantava o conjunto e os deitava no lava-loiça.

 

A televisão, por cima do emaranhado de pacotes de batatas fritas e bebidas que já tiveram melhores dias, existia, desde sempre, aos berros e sempre em canais de reality tv. Aos berros estava sempre a televisão, o Augusto que falava por cima dela para se fazer ouvir, e os olhos do senhor Joaquim que, não emitindo qualquer som, eu ouvia sem qualquer esforço.

 

Quando acontecia acabar o seu abatanado antes de eu acabar a minha bica e, especialmente, quando a temperatura e o vento o permitiam (o vento, claro, pela sua ausência), ele saía do café do Augusto, passava por mim de forma encolhida, dizia um “obrigado” escorregadio e encaminhava-se para o banco, junto à sebe do jardim da nossa rua, mesmo ao lado do café do Augusto, onde ficava, esbatido pelos troncos e pelas árvores e pelas folhas.

 

Os seus olhos que, como quaisquer outros olhos, não falavam, miravam-me com frio, vindos do seu corpo enrugado e enfiado para dentro, e miravam-me, também, com aquele gelo que cola e agarra, típico da solidão que eu, até à data e muito depois dela, desconhecia existir, mas que suspeitava haver.

 

Numa quarta-feira, depois de uma terça-feira em que o senhor Joaquim não apareceu, tinha acabado de fazer os quatro meses em que nunca trocamos uma palavra, como se fosse preciso, em alguma parte do mundo, falar para nos entendermos, estava eu no meu atelier, a olhar, através da montra da loja, para um amolador que se arrastava pesadamente pela rua, quando bateram à porta.

 

Era o senhor Joaquim, com a sua roupa creme, com o seu casaco creme, no seu corpo murcho, de camisa meia aberta. Tinha subido e descido, julgava que era uma loja aberta ao público e, quando percebeu que era um atelier à porta fechada, esteve quase para não bater. Ainda bem que o fez.

- Menina Custódia, como está?

 

A sua voz era tremida, enjaulada naquele corpo seco e de cor neutra, pouco espicaçada, remetida ao silêncio por ninguém querer saber.

 

- Senhor Joaquim! O que o traz por cá? Não se quer sentar? – Disse eu, enquanto puxava a única cadeira que existia no atelier para além da minha.

No rádio, girava a música “Melamolência”.

- Vinha saber como se encontrava a Menina Custódia. Sabe, ontem não fui tomar o meu abatanado e fiquei sem saber como se encontrava.

- Sim, de facto, senti a sua falta. Julgo que ao longo dos últimos quatro meses ainda não tinha falhado nenhuma terça-feira.

- Falhei sim, uma outra terça-feira, aqui há um mês. – Disse, ligeiramente, ofendido. Eu ia dizer que não tinha reparado mas contive-me a tempo.

- Aceita um abatanado? – Virei o assunto.

- Não, obrigado.

 

Era quarta-feira. Podia ser por essa razão.

 

“Lenda” ouvia-se agora. A música da Céu era a minha companhia preferida para dias de atelier, que eram, na verdade, todos os dias.

 

Quando trabalhava no balcão, também por ali naquele Chiado cada vez mais cheio de vida, passava os dias a ouvir vozes, a responder a pedidos e a obedecer a ordens. Os clientes falavam muito. Se calhar, cada um falava o normal, mas, todos juntos, falavam demasiado para uma pessoa só. Demorei a perceber que, para muitos deles, o sentido da vida era mesmo esse, aqueles minutos que falavam e que alguém ouvia, ainda que fosse apenas para executar um serviço. A ida ao balcão do banco, ao balcão da farmácia, ao balcão dos correios, era o seu momento de conversa, era a altura que dedicavam para enganar a solidão onde boiavam os minutos das suas vidas, num mundo cada vez mais povoado de vozes frescas, naquele Chiado tão novo.

 

Ao anoitecer, quando chegava a casa, as vozes dos clientes, daqueles que depositavam cheques atrás de cheques, reformas atrás de reformas, que pediam e pediam e pediam transferências e enchiam os meus dias de pedidos especiais, ainda estavam coladas à parede do meu cérebro que gritava por ajuda e que desejava descanso. Ainda conseguia ouvir, umas horas depois de jantar e já deitada, o eco destas vozes nos meus ouvidos, ainda conseguia reproduzir, com exatidão, os timbres e interjeições utilizadas em cada tipo de pedido. As vozes encrespadas acompanhavam-me até adormecer.

 

- O senhor Joaquim vive ali ao pé do café do senhor Augusto?

- Sim, vivo dois prédios ao lado, com a minha filha Helena.

 

Tirou, da carteira creme, uma fotografia recortada de um dos seus lados, para enquadrar o clã. Nela, existiam para além do senhor Joaquim visivelmente encavado em si próprio, uma senhora com ar imponente e mise de rolos, com uns olhos diferentes dos do senhor Joaquim, não pela cor, não pelo formato, mas por aquilo que procuravam transmitir. Ao lado, uma miúda, talvez a filha, sim, claramente a filha, com o mesmo olhar, com a mesma posse altiva da mãe e mais uma menina sentada ao colo do senhor Joaquim. O senhor Joaquim era o único que estava sentado, em torno do qual girava a fotografia.

 

- Muito bonita, a sua família. – Fui simpática.

- Sim. – Deixou o sim suspenso no ar que expirou. Senti-o tremer ligeiramente, enquanto voltava a guardar a fotografia.

- A Custódia é muito generosa, sabe? Gosto do seu olhar, da forma como fala sem falar, todas as terças-feiras, enquanto bebo o meu abatanado.

 

O CD tinha chegado ao fim, a Céu calou-se, o ambiente tornou-se ligeiramente pesado pela ausência do ruído. Lá fora um carro buzinou dando o mote para o senhor Joaquim continuar.

 

- A minha mulher morreu há uns anos e agora estou a viver com a minha filha Helena e com o seu marido e com as minhas netas. Passo metade do ano com a minha filha Helena e a outra metade com a minha filha Sofia. – Parou para ganhar embalo – Ser velho é um peso. É adiar constantemente a morte e não saber se se deve continuar neste limbo de fardo para os outros ou terminar tudo. É gostar de estar com as minhas filhas e com as minhas netas, de vê-las brincar e saber que, para elas, estes momentos em que partilhamos o mesmo espaço, por exemplo, num almoço de domingo, significam a boa ação da semana. Uma espécie de solidariedade social em que tenho que estar agradecido. Sinto-lhes, nos olhos, o alívio por serem duas e conseguirem dividir o peso de cuidar de um velho. – Fez uma pausa e retomou. - A vida de um velho impacta muito na vida dos novos. Tem outro ritmo, sabe? Precisa de outras coisas…Normalmente, até precisa de mais coisas!

 

Eu sabia. Eu percebia. Não em toda a sua plenitude, infelizmente, mas, na parte que me dizia respeito, eu sabia e percebia. Fui fazer um chá de cidreira e entreguei-lhe uma chávena. Coloquei o CD a tocar novamente e deixei-os ficar, ao CD e ao senhor Joaquim.

 

Na terça-feira a seguir à quarta-feira em que fui visitada pelo senhor Joaquim, acordei com uma certa ansiedade. Não tinha dormido, particularmente, bem e arranjei-me a arrastar. Estava com uma ligeira dor do lado esquerdo da cabeça que, caso não fosse atacada rapidamente, iria piorar, certamente, ao longo do dia. Tomei um remédio e desci para tomar a bica no Augusto.

 

Assim que entrei no café, o Augusto atirou-me, enquanto endireitava a chávena no pires:

 

- Veio, ainda agora, aqui a dona Helena. Provavelmente, não a conhece… A dona Helena é a filha do senhor Joaquim – Neste momento, reparei eu, olhando diretamente para a mesa mais resguardada do café a seguir à mesa que, de facto, era a mais resguardada do café, que ele não estava lá. No seu lugar, estava uma miúda a comer uma bola de Berlim enquanto lia um livro. A sua língua dava voltas aos lábios, limpando, de forma alheada, o açúcar que restava.

 

– Sabe, - Continuou - A mulher dele morreu aqui há uns anos e ele agora andava para aí, olhe, é mesmo assim, um bocado aos caídos… – Essa história já eu a sabia toda: uma parte, deduzi pela sua postura arrastada; a outra, contou-me ele, quando foi ter comigo ao atelier. Continuou. - A vida é mesmo assim: previsível. Todas as terças-feiras ele vinha aqui e afundava-se no seu abatanado. – Começava a ficar desperta e a dor de cabeça acelerava. – A dona Helena raramente cá vinha e, claro, sabendo que era terça-feira e vendo-a entrar porta dentro, pensei logo no pior. – Eu também começava a pensar. – Ele hoje foi encontrado – suspirou – olhe, foi encontrado morto esta manhã, no cadeirão da sala de estar. Até achei estranho, para ser sincero, a filha ter-se vindo dar ao trabalho de aqui vir. Logo no dia da morte do pai… ela que nunca aqui vinha... – E continuou…

 

Não bebi a minha bica. Quando olhei para ela, a espuma já estava escura e colada às bordas da chávena. Pedi um abatanado para beber pelo caminho e saí.

 

Sentei-me, por uns minutos, no banco, junto à sebe do jardim da nossa rua, mesmo ao lado do café do Augusto. Ele tinha razão, a vida é previsível, todos sabemos como é que ela acaba. Todos vivemos na ilusão que lhe podemos dar a volta.

 

Um senhor passeava um cão. Segurava um cigarro na mão esquerda.

 

Todos os dias são redondos, eles rebolam e entornam os seus minutos, uns sobre os outros, e repetem-se, fazem cair as suas horas e os dias, por isso, por isso mesmo, têm aquele formato que não acaba nunca, como uma bola, que retiramos da porta maior do carro, num dia de sol, e nos escorrega pelas mãos e, rola e rola, estrada fora. São assim, os dias todos, sem exceção, até ao último, que deixa de rolar e pára e desfaz-se e acaba.

 

O ar girava com muita força, nessa terça-feira, e eu sentia a minha dor de cabeça a esvoaçar com o vento que enrolava os meus cabelos.

 

Encaminhei-me para o meu atelier, abri a porta com cuidado e liguei a Céu na aparelhagem. Reparei que, o abatanado que carregava na mão, continuava intacto. Peguei numa pá e numa vassoura e comecei a limpar o pó que sempre entrava por debaixo da porta – desvantagens de uma loja de rua. Reparei que, no meio de dois flyers de restaurantes de pizzas que tinham enfiado por debaixo da porta, se encontrava uma fotografia. Nela, o senhor Joaquim pousava com a sua família de olhar austero. Nela, o senhor Joaquim afundava-se sentado, não pelo peso da criança que descansava ao seu colo, mas, possivelmente, prevendo a solidão que seria a sua vida futura. Tinha acertado. Com a sua roupa creme e com o seu olhar receoso, morreu sozinho numa terça-feira de Novembro.

 

No verso, apenas existia o seu nome desenhado a letra esforçada. Entrava agora ““Melamolência”” da Céu, e eu deixei-me estar, sentada no chão de o meu atelier, enquanto sentia toda a tristeza que emanava daquela previsão de futuro acertada. 

 

03
Dez17

Conto #3 A Tinita queria ser escritora.

CD

Catarina (6).jpg

 (fotografia tirada pela minha prima Margarida, em analógico)

 

A Tinita queria ser escritora mas não o era. Trazia e levava, os livros que lia, sempre na versão de bolso, na sua bolsa velha. Não comprava livros novos mas também não pedia emprestado; relia os mesmos de sempre, vezes sem conta, pois adorava as frases e as palavras que ali estavam e, também, os diálogos, e, também, todas as dinâmicas, interjeições e onomatopeias que ali se encontravam, quando as havia.

 

A Tinita, para além de ler os seus livros de sempre, sempre na versão de bolso, que carregava na sua bolsa velha, trabalhava num café-esplanada, que, com dificuldade, se endireitava, numa rua ingreme de Lisboa. Servia cafés e empadas e, ocasionalmente, também pastéis de nata, aos turistas. Quando a Hortense, dona do café-esplanada inclinado, gorda e de vestido azulado como a flor que lhe dá o nome, para ali estava virada, serviam também uns brunches importados, sempre à moda de Lisboa, com fiambre Nobre, queijo Flamengo e manteiga com sal Mimosa.

 

Todos os dias, a Tinita pensava, quando a pausa dos brunches ou das bicas pingadas o permitiam, que, a vida que queria, fazia-se embrulhada em letras e nada misturada com xícaras.

 

A Tinita já não suspirava, o ar, que não saía, estava agora confinado na vida que agora vivia, apesar de pensar e pensar na escritora que poderia ser.

 

O lamento era feito, todos os dias, à Rosa, sua irmã não de sangue mas com quem, irmãmente, divida um quarto, uma cozinha, uma casa e um lar.

 

A Rosa, cheia dos lamentos da sua irmã não de sangue, encolhia os ombros e deixava que o som que saía da televisão se sobrepusesse à voz de Tinita, que sempre falava e falava e falava.

 

No café-esplanada inclinado, cheio de línguas que não a portuguesa (mas, algumas vezes, também a portuguesa), a Tinita não apontava histórias que gostava de contar, nem registava falas que gostava de reescrever.

 

Todas as noites, depois do lamento que queria ser escritora, com a Rosa, sua irmã não de sangue, a Tinita encostava-se na cabeceira da sua cama, almofadada com um tecido de flores anafadas como a Hortense, e pensava que para ser escritora devia (talvez) ter nascido com alguma inspiração.

 

Sabia que assistia a cenas que davam livros, comentava, muitas vezes, que, relativamente àquele casal de turistas acolá, ele, de certeza, que era escultor e ela, de certeza absoluta, que era deputada, e que deviam ter uma história importante para contar, uma mãe austera, um pai submisso, talvez, quem sabe, um irmão que morreu na infância com varicela, uma avó adultera, uma tia adultera, uma prima adultera, talvez, talvez, um avô, um tio ou um primo adultero também.

 

A Tinita não registava no cérebro nem, tão pouco, num papel mal-enjorcado, as histórias que a rodeavam, e adormecia, todas as noites, encostada à cabeceira da sua cama, almofadada com o tecido de flores anafadas como a Hortense, em busca da inspiração que não chegava. Se calhar, pensava, para ser escritora devia mesmo ter nascido com inspiração.

 

A Rosa, sua irmã não de sangue, perguntava-lhe quanto, na sua vida, pesava o sonho de ser escritora e Tinita respondia que, era mesmo para isso que vivia, apesar de nunca uma linha ter escrito: o sonho que se quer mas a vontade que não chega nunca.

 

E, por ali, no café-esplanada inclinado, se deixava ficar, a servir cafés e empadas e, ocasionalmente, também pastéis de nata.

 

Num dia de inverno cheio de sol, com a esplanada recheada de pessoas como se de um palmier recheado se tratasse, apareceu um senhor com uma boina enfiada na sua cabeça despida. Sentou-se numa das mesas da ponta e, enquanto tentava equilibrar a cadeira e a mesa na rua inclinada, pediu um chá de gengibre à Tinita e abriu o seu caderno de capa azul.

 

Nele, começou a escrever, a riscar, a escrever e a riscar. A Tinita passava e olhava e tentava ver o que tanto era escrito e riscado e escrito e riscado no caderno do senhor com uma boina enfiada na sua cabeça despida, que tinha cara de Luís, de senhor Luís, pensou a Tinita, enquanto servia outras mesas, arranhando um inglês deficiente e palavreando um francês rebuscado.

 

As palavras, no caderno azul do senhor Luís, seguiam lisas e impercetíveis na mancha elegante que lhes dava corpo. E eram escritas e riscadas e escritas e riscadas e, entre um gole no chá quente e outro eram, novamente, escritas e riscadas e escritas e rescritas.

 

A Hortense chegava e sentava-se numa cadeira junto do senhor Luís, trocava meia dúzia de palavras e voltava a levantar-se. Pelo caminho, enviava, para Tinita, aquilo que Tinita julgava ser um olhar altivo e um meio-sorriso também com alguma superioridade.

 

As visitas do senhor Luís ao café-esplanada inclinado aconteceram, todos os dias, durante um mês seguido e serviam sempre para escrever mas, também, para conversar com a Hortense. Sempre com chá de gengibre a acompanhar.

 

A Tinita nunca perguntou à Hortense o que o senhor Luís escrevia e riscava e escrevia e riscava até que, um dia, a resposta veio ter com ela.

 

Nesse dia, estava prestes a fechar o café-esplanada inclinado, quando o senhor Luís lhe deu um livro “para substituíres aqueles com que andas sempre”, disse-lhe.

 

A Tinita agradeceu e abriu-o e folheou-o. Talvez a falta de inspiração, talvez o receio de não conseguir finalizar o duro processo de contar a sua história, talvez a conclusão que o sonho profundo talvez não o fosse propriamente, tivessem criado as condições ideais para entregar, ao senhor Luís, a sua história, de bandeja.

 

E ele, com uma história normal entre mãos, escreveu um belo e denso romance.

 

No final, aconteceu, exatamente, aquilo que estão a pensar: a história que a Tinita sempre quis escrever, alguém a escreveu por ela. Era a dela, sem tirar nem por, escrita pelo senhor com uma boina enfiada na sua cabeça despida que tinha, também, cara de senhor Luís, embelezada num lindo livro de capa azul hortense.

26
Nov17

Conto #2 O homem que tinha apenas um rim.

CD

Imagem Mgeraldes a nossa história 2.JPG

 (fotografia tirada pela minha prima Marta, em Lisboa, em digital)

 

O homem que tinha apenas um rim fazia a sua vida normal, demasiado normal para quem tinha apenas um rim.

 

Todos os dias se levantava e todos os dias fazia um fino café de cafeteira italiana que sorvia, ora com muito prazer, quando a espuma saia bem, ora com relativo prazer, quando a espuma não passava de uma fina linha encostada ao rebordo da chávena.

 

Era um calibrador de dia, este seu fino café de cafeteira italiana. Definia, na casa de partida, ao homem que tinha apenas um rim, a qualidade dos seus dias.

 

Nos dias bons, a espuma surgia abundante e, nesses dias, o comboio chegaria à estação assim que ele, o homem que tinha apenas um rim, a pisava. Encontraria, então, um lugar vago na carruagem 1, junto à janela, e sempre de frente para o caminho.

 

Nos dias em que a espuma do café do homem que tinha apenas um rim não passava de uma leve promessa do que poderia ser um bom café, o seu lugar não era na carruagem 1 e seria, certamente, em pé e, claro, de costas voltadas para o percurso.

 

O homem que tinha apenas um rim fazia a sua vida normal, demasiado normal para quem tinha apenas um rim porque, bom, o homem que tinha apenas um rim não sabia que, um rim apenas, nele existia.

 

Quando o descobriu, já tinha ultrapassado a meta dos setenta.

 

A história, do homem que tinha apenas um rim, reza, então, assim:

 

Resolveu, certo dia, o homem que tinha apenas um rim, marcar consulta porque, desde há uns tempos para cá, cada vez que pegava em algum objeto, a força faltava-lhe e o objeto soltava-se e escangalhava-se todo no chão.

 

Na verdade, não era bem a força que lhe faltava: eram os pulsos que lhe doíam, ora o direito, ora o esquerdo, e, mais tarde, os joelhos também lhe doíam, ora o esquerdo, ora o direito, o que, como calculam, dificultava a tarefa de tirar um bom café da cafeteira italiana mas, também, de fazer o percurso de comboio de costas, quando, claro, a espuma não cooperava.

 

Tinha, então, consulta marcada para o seu médico de sempre que, atendendo ao facto de, o homem que tinha apenas um rim, já se encaminhar para os setenta e cinco anos e o médico do homem que tinha apenas um rim ser o seu médico de sempre, concluirão – e bem – que este médico que vos falo já tem idade muito avançada.

 

Apanhou, então, o homem que tinha apenas um rim, no dia da consulta, a carruagem 2 e estancou-se no seu lugar, em pé, de costas para o caminho.

 

A esta altura, já perceberam que, o seu fino café de cafeteira italiana, nessa manhã, deve ter consistido apenas numa aguadilha rala. E foi verdade.

 

Lá chegado, ao médico do homem que tinha apenas um rim, foi visto e feitas ecografias e TACs e exames e mais grafias que não sabemos denominar, para, no final, se descobrir que o homem que tem apenas um rim, tinha, de facto, apenas um rim.

 

Foi uma grande descoberta; uma infeliz descoberta, para dizer a verdade, mas uma grande descoberta. O médico de sempre do homem que tinha apenas um rim não acreditava e, o homem que tinha apenas um rim, também não.

 

O único rim, do homem que tinha apenas um rim, era um bom rim, dizia o médico de sempre do homem que tinha apenas um rim. Era grande e trabalhador e fazia as vezes do outro que devia ter mas não tinha.

 

Quando saiu da consulta, o homem que tinha apenas um rim, já estava melhor do pulso, ora do direito, ora do esquerdo, e dos joelhos, ora do esquerdo, ora do direito. Os objetos, esses, deixaram de lhe cair e conseguiu recuperar a sua vida ao nível da força, segurando, seguramente, tudo o que queria pegar.

 

Mas, algo nele, no homem que tinha apenas um rim, começava a mudar. Sentia-se a afundar, lentamente, numa espécie de tristeza absoluta que não conseguia controlar. Era dor, era sofrimento, era, na verdade, uma doença que sentia aparecer. Era como se lhe tivessem tirado algo com que sempre tivesse vivido.

 

Havia um espaço, cujo lugar não sabia identificar, que existia agora oco, algures no seu ventre cheio de outros órgãos. Esse espaço alargava-se e alargava-se. Sentia, talvez, algo parecido com solidão e mágoa e abandono, como se lhe tivessem rasgado um pedaço da casa, um pedaço do lar, um pedaço da vida.

 

O homem que tinha apenas um rim morria assim, lentamente, todos os dias mais um bocadinho e todos os dias mais e mais. Eram saudades e saudades, de algo que nunca teve, de algo que nunca lhe existiu, saudades do seu rim que o abandonava para sempre, como se a verbalização da sua ausência consolidasse, prontamente, a sua falta.

 

Aos quase setenta e cinco anos, não conseguiu suportar a falta do seu rim desde sempre ausente e deixou-se afundar, deixou-se mingar e, por fim, desapareceu.

 

19
Nov17

Conto #1 Cromo número 32.

CD

CD Covilhã.JPG

 

A Maria Luísa chamou Maria Luísa à filha por Maria Luísa ser o nome da sua mãe.

 

A Maria Luísa neta não gostava do seu nome por não gostar da Maria Luísa avó.

 

A Maria Luísa avó vestia uma blusa leve, todas as manhãs, quer fossem manhãs de verão, quer fossem manhãs de inverno, quer estivesse calor, quer estivesse frio. As suas mãos eram frias, tais como os seus braços e os seus pés.

 

O pequeno-almoço da Maria Luísa neta era, quase todas as manhãs, tratado pela Maria Luísa filha, com esmero e dedicação.

 

Nas manhãs em que a Maria Luísa avó preparava o pequeno-almoço à Maria Luísa neta, o esmero e dedicação corporizavam-se em rodelas de indiferença, o leite era servido frio, sem chocolate e uma carcaça sem conteúdo.

 

Sem recheio, quer o leite, quer a carcaça, assim se ficava a Maria Luísa neta que comia sempre o pequeno-almoço, quer o mesmo tivesse sido feito pela Maria Luísa avó ou pela Maria Luísa filha, com bastante prazer. O que gostava, a Maria Luísa neta, era de comer.

 

A Maria Luísa neta vestia sempre uma camisola cardada creme e as mesmas calças azuis, com pelo por dentro e, sempre também, ficava com o corpo igual ao da Maria Luísa filha que, sendo sua filha, era igual ao da Maria Luísa avó.

 

Um dia, a Maria Luísa neta pede à Maria Luísa filha, que era sua mãe, o cromo número 32 que era, de resto, o cromo que lhe faltava para terminar a caderneta dos ursinhos parvos carinhosos.

 

O número 32 é um número redondo: o três enrola-se bem enrolado e o dois, apesar de acabar bicudo, começa também envolvido sobre si mesmo. Mas é, acima de tudo, este 32, um número quente e Maria Luísa neta sabia-o bem.

 

A Maria Luísa filha, que era sua mãe, disse-lhe que não podia comprar, indiscriminadamente, carteirinhas de cromos, na esperança que lhe saísse o cromo 32, e inventava, dizendo que leu que o cromo 32 não é, na realidade, um cromo e que a caderneta ficava completa exactamente como estava e que até mais dinheiro valia, daqui a uns anos, as cadernetas cujo cromo 32 lhes faltava.

 

Armou-se um berreiro, na casa da Maria Luísa avó, onde viviam, para além da Maria Luísa avó, a Maria Luísa filha e a Maria Luísa neta, com choradeira a voar e livros também.

 

Os dias passaram-se, a vontade de ter o cromo 32 continuava hirta e a Maria Luísa filha continuava a fazer ouvidos de mocos e a insistir na tese que era mesmo assim, que as cadernetas agora dão-se por terminadas sem o cromo 32.

 

Um certo dia, depois de as mãos frias da Maria Luísa avó terem preparado, o leite frio, sem chocolate e uma carcaça sem conteúdo, para o pequeno-almoço da Maria Luísa neta, saiu de casa, a Maria Luísa avó, como sempre o fazia.

 

Voltou, porém, nesse dia, mais tarde do que o usual: o frio já tinha descido ao nível das casas, o jantar já tinha sido comido pela Maria Luísa filha e pela Maria Luísa neta e ambas já estavam de robe vestido e com dois pares de meias por cima do pijama. Ambas já estavam quase a fechar os olhos, deitadas no pequeno sofá de frente para a televisão, demasiado pequeno para ambas. E ambas, também, acordaram com o baque de uma chave cravada na porta.

 

Era a Maria Luísa avó que, com as suas mãos frias, com os seus braços frios e com os seus pés frios, trazia, entalado entre os dedos polegar e indicador, o cromo 32. O cromo estava hirto como o frio e também hirto como a vontade de Maria Luísa filha o ter.

 

Um saco cheio, estendia-se pelas costas da Maria Luísa avó, onde constavam inúmeras carteirinhas abertas, todas cuidadosamente rasgadas na sua aresta superior e, também, inúmeros cromos com o número 6, 19, 27 ou outro. Nenhum deles era o 32, o número quente e arredondando, para além do cromo que a Maria Luísa avó pendurava nos dedos.

 

A televisão recitava a repetição de um qualquer programa.

 

No dia seguinte, com esmero e dedicação, a Maria Luísa avó preparou, à Maria Luísa neta, um leite frio, sem chocolate e uma carcaça sem conteúdo.

 

E, todos os dias daí para a frente, a Maria Luísa neta preferiu a frieza de um leite, sem chocolate e o abandono de uma carcaça sem conteúdo do que o esmero de um pequeno-almoço dedicado.

 

Todos os dias.

 

Mais sobre mim

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Biografia

Sou autora do livro infantil “Maria Bolinhos – no Reino da Maravilhosa Doçaria Alentejana” e do blog insensatez.blogs.sapo.pt. Escritora compulsiva: a minha vida é absorver tudo aquilo que vejo e tudo o que ouço. Se estão comigo há um certo risco de se tornarem inspiração da minha próxima personagem :) mas, calma!, não fujam já! Dou Workshops de Escrita Criativa a crianças e a adultos - são boas horas que sempre voam embaladas pelo fluir frenético da escrita. Devoro arte, sou constantemente inspirada por ela, nas suas mais diversas formas: livros, pintura, música, cinema, fotografia. Mas, também, jardins, praias, arestas dos prédios recortados da minha Lisboa: inspiro a luz que escorre pelas suas paredes, expiro um texto completo de incertezas. Não passo sem café, sem livros, sem as minhas viagens mas, especialmente, sem o ar livre da minha cidade, a minha maior inspiração. Tenho 32 anos, vivo em Lisboa com o meu marido e com as minhas palavras preferidas.

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