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(in)sensatez

14
Mai18

Rescaldo da Eurovisão.

CD

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Como grande parte dos portugueses, também eu, no ano passado, fiquei deslumbrada com o Salvador Sobral mais do que, propriamente, com a Eurovisão.

 

Não adoro o formato da Eurovisão mas não é isso que me faz não seguir este espetáculo. É, basicamente, porque acho que as músicas são francamente más. Não me aquecem, nem me arrefecem, e não traduzem aquilo que as músicas (tal como a Arte, em geral), na minha opinião, devem traduzir: comover-nos e dar-nos algum sentido.

 

Apesar disso, ontem, porque não me apetecia fazer nada e precisava de mudar as antenas do meu tema do momento, lá puxei para trás e me dediquei a analisar. Não aguentei as mais de três horas de programa – calma, que ainda tenho uma vida –, fui acelerando nalguns momentos (ou, antes, nalgumas canções) mas consegui concluir algumas coisas.

 

Ora, aqui ficam elas:

 

- Não há uma única música em que eu diga: “olha, aqui está uma coisa gira”. Impressionante como tudo é excêntrico, megalómano, sem qualquer ponta de delicadeza. Demasiado fogo-de-artifício, como, e bem, Salvador Sobral detectou e referiu há um ano;

 

- Quanto à nossa música, apesar de pertencer ao grupo das mais sóbrias, achei muito fraquinha. Porém, parece-me excessivo termos ficado em último lugar. Não era boa mas também não era tão má como outras que por ali passaram;

 

- Por outro lado, somos mesmo fortíssimos no que toca à organização de eventos. Não tenho propriamente termo de comparação mas julgo que esta organização enche o olho a qualquer um;

 

- A Fado (Ana Moura e Mariza), na abertura do espectáculo, foi uma aposta mais do que ganha. Foi tão, tão bom. Mas não ficámos por aí: a dada altura, sobem ao palco Branko, Dino D' Santiago, Plutónio, Mayra Andrade e Sara Tavares e, entre outras, tocaram uma música que adoro chamada Reserva para Dois (podem ouvir aqui);

 

- As apresentadoras foram a escolha mais acertada da história das apresentadoras. Para mim, um dos pontos mais do que positivos deste espectáculo foi verificar que temos mãozinhas para isto e muito mais. Sem problemas, com saber e com classe, podemos entregar um trabalho a quatro pessoas que cumprem o papel de forma mais do que competente. Polémicas à parte, do que ao nível de inglês da Catarina Furtado diz respeito, todas elas estiveram perfeitas. Destaco particularmente o papel da Filomena Cautela que, talvez por não estarmos tanto à espera, o desempenhou de forma ímpar. Tenho acompanhado o seu percurso e parece-me que tem evoluído muito;

 

- A promoção que se faz a Portugal é gigante e tentadora. Os filmes que foram apresentados são maravilhosos e eu própria fiquei com vontade de começar a viajar mais cá dentro;

 

- Não vou comentar a vencedora da Eurovisão porque, enquanto a ouvia, fiquei sem palavras e acho que ainda não as recuperei. Pensar em quem ganhou no ano passado e em quem ganhou este ano…;

 

- Por último, o ponto alto foi, SEM DÚVIDA, a actuação do Salvador Sobral com a sua música "Mano a Mano" e, especialmente, com o enorme Caetano Veloso a cantarem o “Amar pelos Dois”. Por mim, ganhava outra vez, pode ser?

 

E vocês? Acrescentam alguma coisa à lista? 

 

15
Jan18

As quotas são uma forma de discriminação.

CD

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Há já mesmo muito tempo que queria lançar aqui o tema das “quotas”. O comentário, da Rita Ferro Rodrigues, direccionado à escolha feita pela RTP das quatro apresentadoras que vão apresentar a Eurovisão, foi o motivo que precisava para lançar o tema.

 

Aqui está o comentário, da Rita Ferro Rodrigues, lançado no twitter:

"Vejamos: 2017 foram só homens a apresentar a final da Eurovisão, 2018 só mulheres. Nada a apontar. Grave é o facto de ambos os painéis serem compostos apenas por pessoas brancas. Por tudo o que isto significa ao nível das oportunidades e da representatividade. Falamos sobre isso?”

 

Gostava de fazer aqui um parênteses antes de entrar no tema das “quotas”:

 

Apesar de não conhecer pessoalmente a Rita Ferro Rodrigues, aquilo que passa nas redes e na televisão, não me agrada particularmente e, consequentemente, por ela não nutro uma grande simpatia. Obviamente, que isto é uma opinião minha, que em nada impactaria num eventual reconhecimento relativo a algo que ela, na minha perspectiva, fizesse bem. A Rita tem, em mãos, uma causa nobre pois, para quem não conhece, é a fundadora de uma plataforma feminista, de seu nome CAPAZES, cujo propósito é, em teoria, correr atrás da igualdade dos direitos e oportunidades entre os géneros. Vou mais longe: uma causa nobre, necessária e urgente! Ainda há muito trabalho a fazer neste caminho. Nisto, julgo eu, estamos todos de acordo. Sucede que, a Rita, ocasionalmente, lança uma polémica, através de comentários cujo objectivo, a meu ver, é misturar o essencial ao acessório. Foi ela que, por exemplo, lançou a bomba dos livros da Porto Editora: uma guerra sem sentido como, aliás, ficou provado mais tarde.

 

O problema quando se mistura muita informação, essencial e acessória, é que, às tantas, as pessoas deixam de ver o essencial, perdem-se na luta que inicialmente travaram, esquecem-se dos pontos importantes, baralham-se na confusão e começam a enrolar-se no acessório, transformando tudo numa salganhada que não tem descrição. Já ninguém sabe sobre o que está a falar nem qual a luta prioritária.

 

Ela tem, claro, todo o direito em expressar-se e de passar cá para fora todas as suas inquietudes. Na minha perspectiva, julgo apenas que podia estar mais focada na sua luta feminista. Penso que ganhávamos todos mais com isso.

 

Ora, o tema que a Rita lançou, apesar da salada russa, toca no tema "quotas" e isso é de valor.

 

Basicamente, interpreto eu, ela referiu que as apresentadoras são boas e tal mas que, bom, devíamos ser mais inclusivos no que toca aos tons da pele.

 

É aqui que discordamos.

 

Não acho que alguém tenha que ser excluído por ser negro mas também não me parece bem que alguém seja recrutado apenas por ser negro.

 

Todas aquelas apresentadoras, na minha opinião, são boas apresentadoras (desconheço apenas a Daniela Ruah enquanto apresentadora, mas até compreendo a sua escolha atendendo ao facto de ela ser uma figura com reconhecimento internacional e fluente em inglês). Diria que, estas quatro apresentadoras, são o crème de la crème da apresentação portuguesa.

 

Eu não quero viver num país em que a escolha seja feita com base em critérios que não seja unicamente o do profissionalismo. Não quero viver num país em que a escolha é feita para cobrir quotas: 25% brancos, 25% negros, 25% chineses, 25% indianos, onde, dos 100%, 30% são homens heterossexuais, 30% mulheres heterossexuais e 30% pessoas homossexuais e 10% bissexuais.

 

Mas o que é isto? É esta a sociedade que pretendemos construir? Onde, às tantas, estamos a contratar com base em critérios como a cor da pele ou a orientação sexual só porque não queremos ser multados?

 

Sou contra as quotas porque são uma forma de discriminação.

 

Acho que é importante debater-se este tema e, desta forma, não considero o comentário da Rita irritante ou de quem não tem mais nada que fazer. Só o acho descontextualizado atendendo ao facto que ela tem um propósito grande para abraçar.

 

A minha sugestão é que ela não misture as histórias e que se foque no feminismo de forma séria e direccionada, caso contrário, inevitavelmente, acaba por misturar o acessório com o essencial e está tudo estragado.

 

Qual a vossa opinião?

16
Mai17

Os nossos heróis.

CD

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Comportamo-nos como aqueles pais que maldizem os filhos que se portam e respondem mal.

 

Estamos sempre a refilar porque somos preguiçosos e desenrascados, encostamo-nos à sorte e esperamos pelo "tudo se faz". É sempre assim.

 

Não gostamos da nossa forma fácil e leviana de viver, com álcool e mulheres, como disse o outro, mas não conseguimos viver de outra forma.

 

Dizemos mal deste nosso estilo de vida mas não admitimos que nos apontem o dedo. 

 

Somos assim: maldizentes mas orgulhosos.

 

Numa fase inicial, quando o Salvador se apresentou, poucos foram aqueles que conseguiram ouvir a beleza da música “Amar pelos dois”. Ou, porque tinha tiques de aleijadinho, como li algures, ou, porque a música, lisa e crua, não era música para o festival da Eurovisão.

 

O casaco, a barba e o cabelo, os olhos esbugalhados e as mãos enroladas não ajudavam à festa - as críticas foram mais do que os aplausos, “lá vamos nós fazer mais uma figura triste”, ouvia-se.

 

O que é certo é que o Salvador foi passando e que a legião de fãs foi aumentando. Os tiques passaram a ser secundários, a música foi entrando no ouvido e já não podíamos ouvir dizer mal o nosso menino. A música escolhida, de uma beleza e suavidade ímpar, começou a fazer parte. A fazer parte de nós.

 

No passado fim-de-semana, lá rumamos ao aeroporto, numa procissão de fazer doer a alma de amor. Esperamos pelo nosso herói, como já esperamos por tantos outros, pois, na verdade, são sempre heróis, todos aqueles que nos representam e que levantam de novo aquele esplendor único que é o de Portugal.

 

São sempre heróis, todos aqueles que esbanjam a palavra em português, que espalham o calor da nossa língua que, claro, é única como qualquer outra, mas que, para nós, portugueses, embeiçados pelo que temos, tem aquele enrolar bom, que a torna ainda mais especial. 

 

São sempre heróis, todos aqueles que quentes, íntegros e certeiros, tal como a música do Salvador, choram e vibram e que, longe dos fogos de artifício desta vida, não manipulam nem ofuscam, com luzes fortes, quem os está a ver.

 

Bonitos, reais e concretos – sem sermos lamechas. Esta música somos nós. Precisamos de mais Salvadores, de mais Luísas e de mais amores. Precisamos de mais Éders, de mais futebol e de mais vitórias. Estamos no bom caminho – isto sabe tão bem!

Estamos a vincar a nossa identidade sem entrar no caminho que todos seguem.

 

No final, lá mesmo no final, muito provavelmente vamos concluir que, sem sombra de dúvida, chegamos para amar por todos. 

 

E isso é tudo.

Mais sobre mim

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Biografia

Sou autora do livro infantil “Maria Bolinhos – no Reino da Maravilhosa Doçaria Alentejana” e do blog insensatez.blogs.sapo.pt. Escritora compulsiva: a minha vida é absorver tudo aquilo que vejo e tudo o que ouço. Se estão comigo há um certo risco de se tornarem inspiração da minha próxima personagem :) mas, calma!, não fujam já! Dou Workshops de Escrita Criativa a crianças e a adultos - são boas horas que sempre voam embaladas pelo fluir frenético da escrita. Devoro arte, sou constantemente inspirada por ela, nas suas mais diversas formas: livros, pintura, música, cinema, fotografia. Mas, também, jardins, praias, arestas dos prédios recortados da minha Lisboa: inspiro a luz que escorre pelas suas paredes, expiro um texto completo de incertezas. Não passo sem café, sem livros, sem as minhas viagens mas, especialmente, sem o ar livre da minha cidade, a minha maior inspiração. Tenho 32 anos, vivo em Lisboa com o meu marido e com as minhas palavras preferidas.

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