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(in)sensatez

13
Mai18

O Facebook quer acabar com os solteiros.

CD

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Antes de mais, recordar que não tenho rigorosamente nada contra os sites de engate. Aliás, em tempos até escrevi sobre o Tinder e as razões porque acho que é um local maravilhoso para malta se encontrar e amar (podem ler o texto aqui).

 

Bom, vamos falar sobre o tema de hoje: ficou-se a saber, aqui há uns dias, que o Facebook está a criar uma ferramenta para encontros amorosos.

 

A primeira coisa que me fez acender logo umas luzinhas foi: não é o Facebook o maior centro de engate do planeta? Que levante a mão quem nunca engatou ou foi engatado no Facebook. Nada de desviarem os olhares, eu estou-vos a ver. De certeza que preferiam dizer que todas as vossas relações começaram com um encontrão, à saída da biblioteca, carregados de livros, mas não, todos sabemos que a realidade não é essa.

 

A ideia dos príncipes que surgem montados num cavalo branco pode parecer bonita mas bastante irreal. Não é mesmo o meio mais utilizado para os príncipes se deslocarem. De todo.

 

Segundo as palavras do próprio Facebook (sim, todos sabemos que o Facebook ainda não fala - é uma força de expressão) o propósito desta aplicação é mesmo a criação de relações duradouras: “É para relações com algum significado, não apenas casos de uma noite”. O que é triste porque (quase que aposto) muitos dos engates que, até então, surgiram nesta plataforma, de certeza que não passaram de uma noite. É bom ver as coisas estão a mudar (alerta: ironia!).

 

Mas o que me intrigou e levou a escrever este texto foi a história trazida pelo próprio Facebook para justificar esta nova ferramenta. Ora vejam: “Milhões de pessoas dizem que são solteiras no Facebook e temos de fazer algo quanto a isso.”

 

Temos que fazer algo quanto a isso?

 

É bom saber que o nosso estado civil, nesta sociedade moderna, nesta sociedade evoluída, nesta sociedade toda prá frentex, continua a funcionar como o nosso calibrador de felicidade. Como se o nosso estado civil fosse, de algum modo, motivo para mudarmos algo porque, de certeza, que algo está errado em nós, para continuarmos solteiros.

 

O anjo da guarda dos solteiros desta sociedade moderna, evoluída e prá frentex reuniu, então, o Conselho de Administração Executivo dos sentimentos humanos e decidiram que tinham que fazer alguma coisa para alterar a vida de quem tem “solteiro” definido no perfil do Facebook, numa tentativa de lhes mostrar a luz e de os guiar para fora das trevas onde essa malta toda se encontra.

 

É bom termos um Mark Zuckerberg nas nossas vidas e devemos estar gratos por isso.

 

Nunca se esqueçam de agradecer. 

10
Mai18

Sócrates: a arte de bem ludibriar.

CD

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Bom, lá vou eu trazer à discussão o tema do momento: SÓ-CRA-TES. Sim, dito exatamente desta forma: em voz alta e espaçadamente, porque, em voz baixa e rapidamente, andaram todos a dizê-lo durante os últimos anos, na tentativa de o chutarem, tranquilamente, para debaixo do tapete, para que ninguém desse por ele.

 

Eu tentei, com todas as minhas forças, não falar sobre isto aqui no blog, pois raras são as vezes em que trago para aqui o tema “política”. Sucede que, neste momento, é a única coisa que me interessa no panorama nacional: o Benfica não ganhou o campeonato e o Festival da Canção não me aquece nem me arrefece. Por isso, perdoem-me.

 

Para começar, devo dizer que sempre me mantive afastada de SÓ-CRA-TES, apesar de um dia quase ter esbarrado com o seu advogado no El Corte Inglés. Este nosso afastamento não tem qualquer segredo: sempre achei que, ao brilho que emanava, não vinha agarrada a confiança que pretendia transmitir.

 

A mim, sempre me pareceu estranho que as pessoas não prestassem atenção aos sinais que o Universo envia e, agora à distância, podemos concluir que foram mesmo muitos. Que cegos que fomos!

 

Para começar, falamos de um Primeiro-ministro que esteve 7 anos à frente do país e que tentou, por todas as formas e feitios, controlar a comunicação social (quem se lembra das polémicas em torno da TVI, em geral, e da Manuela Moura Guedes, em particular?), que depois foi alvo daquela confusão de ser ou não ser licenciado (qual Tragédia de Hamlet!), que depois se viu envolvido no caso Freeport e das luvas e depois no caso de Vara, do sucateiro e das luvas e depois na Operação Marquês e das luvas e depois no caso da Lava Jato e das luvas e depois da casa de Paris e das suas obras e depois no esquema do apartamento no Heron Castilho e depois da polémica do amigo que era mais do que seu pai e depois a história das roupas e do sustento da família e depois, depois, e depois a certeza de que nunca mais na sua vida terá frio nas mãos, tantas foras as luvas que adquiriu, ao longo dos anos.

 

O António Costa, por sua vez, naquele seu jeito tranquilo que lhe é característico, numa tentativa de gerir a crise da melhor forma, no último dia do ano de 2014 vai visitar o amigo (não há aqui qualquer ironia - foram as palavras do próprio) e atira aquilo que já todos sabemos “Vai certamente lutar pelo que acredita ser a sua verdade” – nem Costa acredita na inocência de SÓ-CRA-TES. Nem Costa, o eterno optimista, acredita…

 

Após o seu pedido de desfiliação do Partido Socialista, na passada semana, vemos SÓ-CRA-TES sozinho, abandonado por todos, numa ilha ali na Expo, e achamos que o filme acabou.

 

Mas, não, não acabou.

 

A sua enganada ex-namorada, a jornalista Fernanda Câncio, escreve um artigo despeitado, reflexo da forma como, muito possivelmente, se sente, a rasgar de forma nunca antes vista. Nas linhas que escreve fica a pairar no ar a forma como Câncio se sente: traída, apunhalada pelas costas, traída (outra vez) e zangada. E é neste momento que esta história ganha todo um estatuto de romance cor-de-rosa e ficamos a saber que as artimanhas e o poder de argumentação de SÓ-CRA-TES também eram utlizadas na esfera privada, mais concretamente, na esfera íntima, arrastando toda a gente para os caminhos que ele próprio criava, utilizando, possivelmente, de forma a não deixar qualquer rasto, algumas das luvas, entretanto, ganhas. Ficámos a saber, então, que a sua lábia, a mesma que convenceu os portugueses a elegerem-no duas – DUAS – vezes, muito possivelmente também era usada no quarto onde se deitava. Ok, isto agora ficou estranho.

 

Para terminar, apenas dizer que nem SÓ-CRA-TES se livra do julgamento em praça pública, nem o PS se limpa deste lixo todo que traz colado ao corpo, porque, assumindo ou não, criou as condições necessárias para que um homem como SÓ-CRA-TES se sentasse na cadeira de Primeiro-ministro durante sete anos, gozando com a cara de cada um de nós – mesmo de quem não o elegeu, como foi o meu caso.

24
Mar18

Opinião: O Que Sabemos do Amor, de Raymond Carver.

CD

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Aqui há uns tempos escrevi:

 

“Estou a ler um livro que me anda a inquietar.

Ontem, por exemplo, tive que o largar, porque já era tarde, já estava meia adormecida e estava com receio que me assombrasse o sono – resolvi pegar noutro.

É muito poder dado a um aglomerado de folhas. Muito poder. Mexerem com os nossos sentimentos, ainda é como o outro, mas, bolas!, mexerem com o nosso sono é, absolutamente, brutal (caso não fosse muito cansativo).

Vou falar sobre ele brevemente - acho que este escritor merece ser partilhado ao mundo.

Curiosos?“

 

Foi engraçado porque, assim que escrevi o texto acima, algumas pessoas vieram-me logo perguntar qual era o livro. Aqui estou eu para revelar tudo.

 

O livro chama-se "O que sabemos do amor", de Raymond Carver.

 

Carver foi um escritor americano que apenas viveu 50 anos e que ficou conhecido, essencialmente, pelos seus contos. O facto de se ter casado muito cedo e de ter que sustentar a família, levou-o a deixar a escrita de lado. Há imensa confusão com as edições dos contos de Carver. Eu comprei e li a que está na imagem, publicada pela Quetzal, traduzida por João Tordo, pois os contos estão completos. Neste livro encontramos, então, a versão original de 17 contos escritos por Carver.  No livro onde estes textos estão reproduzidos (e, também, o mais conhecido) “De que falamos quando falamos de amor”, mais de 50% dos textos estão cortados. Portanto, quando comprarem, assegurem-se que têm a versão dos contos completa.

 

Eu adorei este livro. Carver escreve maravilhosamente bem, de uma crueza inimaginável, sem qualquer mel para adoçar o que de mais ácido existe em nós.

 

Quando lemos os seus contos, estamos sempre com o coração na boca, não pelas frases pomposas e cheias de bibelots, mas devido à dureza que cada ideia, lugar ou pessoa, em si encerra.

 

Destaco 4 contos: “O Caso”, “Uma Coisa Pequena e Boa”, “Se tu assim o quiseres” e “Principiantes”.

 

O conto “Principiantes” tem uma descrição do que é o amor que é absolutamente deliciosa pelo realismo que representa. Fala sobre o quanto amamos quem hoje temos ao lado, o quanto amámos quem por nós passou, a forma como não conseguimos compreender como amámos tanto quem connosco viveu e, especialmente, a nossa capacidade de acabar e de recomeçar.

 

Os contos são envolventes, alguns duros, na maioria duros, mas a dúvida permanece sempre, deste título que, de afirmação, transformo em pergunta: O Que Sabemos do Amor?

 

Leiam. É um dos livros da minha vida.

22
Mar18

Mulheres opinativas não são bem-vindas.

CD

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Hoje estava a ouvir um podcast (já vos disse que estou viciada em podcasts e que, actualmente, são também a minha grande companhia nas viagens de carro?) e, a data altura, comentava-se o facto de as mulheres terem pouca expressão nos programas de debate. Que me lembre, assim de cabeça, fora a Clara Ferreira Alves, do painel do Eixo do Mal, eu não estou a ver mais nenhuma. Mas admito que possam haver mais.

 
Sim, ainda considero as quotas uma forma de descriminação mas não é disso que se trata este texto. É apenas uma constatação de que, de facto, a sociedade não está ainda preparada para ter mulheres a opinar (ou ainda não quer ter).

 

Há muitas razões para tal acontecer e, possivelmente, o facto de, durante muito tempo, as opiniões femininas terem sido consideradas como opiniões histéricas, de pessoas histéricas, não deve, de todo, ter ajudado na inclusão das mulheres em painéis de opinião. Adoro quando associam o histerismo às mulheres, parece que estou numa caverna e temos um homem grande e pojante a fazer sons graves e uma mulher vestida com roupa de peles de animal, a dar gritinhos esganiçados. E, depois, o homem sai para a caça e a mulher fica na caverna a tomar conta dos filhos e a falar, aos gritinhos, com as amigas das cavernas vizinhas.

 

Voltando ao tema: por um lado, o consumidor dos programas, que não está sensibilizado para ouvir mulheres, por outro, o lado da organização dos programas, que acha que o público quer é ouvir tipos de barba, podem ser algumas das razões que estão na génese desta desigualdade. Atenção: eu quero ouvir os tipos de barba. Mas, também, gostava – e não digo isto por ser mulher – de ouvir opiniões femininas. Só para dar outras perspectivas – e, sim, sei que, entre a população feminina, as opiniões também divergem muito, claro que sim.

 

Mas, voltando à vaca fria, porque é que será que, na generalidade dos casos, não queremos ouvir mulheres? Consideramo-las como fontes menores de informação? Achamo-las menos válidas? Será que o mundo tem mesmo um problema com as mulheres que estudam, argumentam e debatem? Os estudos dizem que a grande fatia dos estudantes que frequentam o ensino superior são mulheres. Qual a razão, então, para os programas de opinião serem, na sua maioria, compostos por homens?

 

O que é que acham? Não sentem esta desigualdade?

17
Mar18

Opinião: Call Me By Your Name.

CD

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Depois de vos falar deste filme, dou por encerrada a minha viagem pelos filmes dos Óscares de 2018. E, claro, fechamos com chave de ouro.

 

Se eu tivesse que escolher uma palavra para caracterizar o filme que vos trago hoje, ela seria BELO. Vamos falar do Call Me By Your Name, um daqueles filmes que nos entra pelos olhos adentro, e fica e se instala e se aninha e não desaparece.

 

À medida que os meus dias vão passando, mais eu gosto deste filme. É daqueles filmes que permanece, que não morre e que se torna mais consistente à medida que a nossa vida vai rolando por onde os dias a levam. Ocasionalmente, lembro-me de uma cena que me enterneceu ou recordo-me de uma frase que gostei.

 

É um filme profundo mas é também um filme leve, muito leve, muito limpo e, claro, belo.

 

São vários os pontos, por onde se consolida este filme:

 

Primeiro, passa-se em Itália, neste país-fetiche, onde as paisagens nos são familiares e onde a comida nos consola, neste país onde as pessoas conversam com a voz alta, aos gritos, muitas vezes, mas não estão chateadas, reforçando mesmo aquela mania que temos de aumentar o volume para nos fazermos ouvir.

 

Depois, refere-se a um período que, para muitos de nós, já se encontra muito longe: a adolescência. O protagonista tem 17 anos e vive as férias de verão, naquela terra do norte de Itália.

 

Quantos de nós se lembram das nossas férias adolescentes e dos espíritos livres em que nos tornávamos nesses meses?

 

Essa leveza de verão é-nos muito próxima e, apesar de já se encontrar muito longe, este filme relembra-nos as saudades desse tempo. Eu senti muitas.

 

Depois, o mundo gira à volta dos mistérios do amor de Elio (Timothée Chalamet – que faz uma interpretação bestial). O amor e os seus mistérios podem mesmo ter vários prismas. E calhou, naquele verão regado a banhos no tanque e a músicas de guitarra, que tivesse a forma de um amor homossexual.

 

Se é relevante, para mim, este amor ser homossexual, para dar consistência ao filme? Não. Não é. Porque não é de homossexualidade que ele fala. É de Amor e de descoberta. Mas, especialmente, de Amor.

 

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Elio vai construindo a sua relação com Oliver (Armie Hammer), o adulto bonito, penteado e escultural, e, à medida que os gestos, olhares e as desculpas para estarem juntos aumentam, vamos torcendo para que a relação se desenrole.

 

Engraçado porque a personagem de Oliver está - de uma forma bastante subtil – muito bem desenhada: ele é a visita de casa, ele é o adulto, ele é o estável. E é curioso assistir à forma como ele se vai amanteigando perante o seu Elio, sempre de forma subtil, como são as transformações realistas.

 

Os sons também são um elemento muito presente no filme: o som das bicicletas a rolarem na gravilha ou da água no tanque – lembram-se de andarem de bicicleta, ao sol, no verão desenhado em tons amarelos? É também disso que este filme fala.

 

Gostei muito de uma cena (uma cena que, na verdade, tinha tudo para eu odiar) onde, o pai de Elio, lhe diz que sabia da relação dos dois. Gostei muito do consolo que dá ao filho, da forma como escolhe as palavras e da dimensão das mesmas, mas gostei, principalmente, da importância que dá ao primeiro amor do filho. Comovente.

 

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Gostava ainda de referir que a banda sonora maravilhosa, suave como as imagens que nos chegam, embrulha o filme e nos entrega como se de uma obra de arte se tratasse.

E, o melhor, é que é mesmo disso que se trata.

 

Ouçam e deixem-se ir.

16
Mar18

Turismo – outra vez.

CD

 

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(eu juro que, depois deste texto, me calo com o tema dos Turistas em Lisboa – pelo menos, durante umas semanas – mas, de facto, acho esta questão muito importante e que deve ser debatida até à exaustão).

 

Temos alguma legitimidade para mandar vir com os turistas em Lisboa, quando, muitas vezes, também nós somos turistas?

Eu julgo que sim, que temos toda a legitimidade.

 

O meu problema com o turismo em Lisboa é o deslumbramento. É saber que podemos estar a construir um turismo sem regras, completamente desenfreado, sem noção das consequências porque nunca parámos para pensar ou para aprender com os erros dos outros. E, depois, quando acordarmos, pode ser demasiado tarde.

 

O meu problema com o turismo em Lisboa é o abandono. É ter a suspeita que podemos estar a construir um turismo que arrefece costumes e que se constrói sentado na modernidade de quem chega. Um turismo que manda os de cá para outro lado qualquer, porque aqui já não há espaço para todos. Basicamente, o meu receio é estarmos a criar um turismo que abandona as pessoas que aqui vivem.

 

Na minha opinião, há que criar um equilíbrio entre os de cá e os de lá. Não pôr os de lá como os reis da Cocada, valorizar os de cá e dar-lhes a possibilidade de continuarem com as suas vidas no sítio onde pertencem. Criar condições para que os de lá e os de cá vivam alegremente sem os de cá se sentirem ultrapassados pela direita pelos visitantes.

 

Se quero os turistas fora da minha cidade? Não.

 

Não faria sentido dado que eu adoro ser turista e não queria ter essa possibilidade vetada. O que eu quero é um turismo consciente, um turismo equilibrado e não uma obsessão doentia ao dinheiro que o turismo traz, dentro das malas de porão, deixando entrar, por isso mesmo, sempre mais e mais pessoas, sem qualquer regra! Só isso.

 

Temos alguma legitimidade para mandar vir com os turistas em Lisboa, quando, muitas vezes, também nós somos turistas?

 

Sim! Claro que temos. Porque julgo que ainda vamos a tempo de voltar a equilibrar isto tudo. Por isso, falem, debatam este assunto e não se enervem porque ainda vamos a tempo.

E ir a tempo é muito bom.

15
Mar18

Ora, mas isso acontece em todas as grandes capitais europeias!

CD

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Assim que usam o argumento “Ora, mas isso acontece em todas as grandes cidades europeias!”, eu desligo. Logo. Direto. Sem passar pela casa da partida. Descredibilizo a pessoa em causa, deixo de a ouvir, ignoro qualquer frase depois disso, risco a pessoa da minha vida, morreu para mim, acabou. Vá, calma, é possível que a frase imediatamente antes desta esteja carregada de exagero. É possível. Mas um exagero muito próximo da realidade.

 

As mais giras nunca foram um objetivo a atingir. As mais inteligentes, talvez. Mas, neste texto, é de beleza que falamos e também de alguma luxúria e, especialmente, de dinheiro.

 

No outro dia, dediquei-me a ver um pedaço de um programa na RTP 2, sobre turismo e turistas, chamado “Turistas, vão embora”. Falaram de diversas cidades europeias com graves problemas relacionados com o turismo. Uma das cenas que mais me marcou foi quando uma senhora de Veneza contava que, certa vez, um turista lhe tinha perguntado: “A que horas é que isto fecha?”. E com isto referia-se à cidade de Veneza. Achava, possivelmente, que isto era um parque de diversões.

 

Desculpem lá voltar a bater no ceguinho mas, na minha cidade, o meu custo de vida aumentou e a minha qualidade de vida diminuiu: os restaurantes estão cada vez mais caros e eu não consigo uma vaga com facilidade (se calhar, é só uma forma airosa do mundo me fazer gastar cada vez menos dinheiro em copos e jantaradas – está certo, eu aceito).

 

E, claro, depois temos que levar com aquela frase, acompanhada com aquele sorriso meio estranho, francamente orgulhoso e com muitos quês de snobismo: “Ora essa! Mas tu agora não sabes que pertencemos às tipas mais giras! Somos o último hit!”, sim, dizem isto enquanto esganiçam bastante a voz e terminam sempre – mas sempre - de forma igual: “Não sabes que isto acontece em todas as grandes capitais europeias?!?!

 

Sei, malta. E não gosto. Desculpem lá não compactuar com este complexo de inferioridade que alguns portugueses têm, quando acham que tudo o que é em estrangeiro é que é bom, quando, na verdade, há muita coisa no estrangeiro que não presta.

 

Há muita coisa boa lá fora, eu sei. Felizmente, tenho muito mundo e não gosto – mesmo nada – desta ambição desmedida de nos tornamos nos mais populares da festa.

 

Caminhamos para ser uma Disneyland Paris com Sol (já que, na Disneyland Paris verdadeira, o Sol é escasso), virada para o turista e a desprezar completamente as pessoas que aqui querem viver e trabalhar.

 

A pergunta que se impõe é: que tal sermos inteligentes e aprendermos com os erros das, vá, grandes cidades europeias que tanto queremos alcançar?

12
Mar18

Opinião: Linha Fantasma.

CD

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Este fim-de-semana foi passado de forma muito cinematográfica. Vi dois filmes maravilhosos que ficarão, certamente, na minha memória.

 

Começámos logo bem, com o maravilhoso “Linha Fantasma”, com Daniel Day-Lewis (que interpretação!), Lesley Manville (maravilhosa!) e Vicky Krieps (uma atriz luxemburguesa, com uma interpretação deslumbrante!).

 

Há quem se questione: sobre o que é que é o filme?

 

E há quem responda que é sobre a vida de um costureiro. Mas há, também, quem vá mais longe e diga que o filme é sobre uma história de amor.

 

Ora, eu acho que, embora o filme toque na história de um costureiro e na sua história de amor, o filme não é, de todo, sobre isso.

 

O filme é sobre um homem que mantém uma posição de supremacia face à sua mulher que, por sinal, é a sua musa inspiradora. O filme é sobre a forma como este homem é obcecado pela sua profissão mas é, especialmente, sobre a forma como esta musa encontra um modo de ter domínio sobre ele, tornando-o indefeso e carente e dependente dela. O filme é, também, sobre a forma como ele, de maneira surpreendente, aceita esta dependência. O filme é, especialmente, sobre o modo como esta relação sobrevive neste balanço, ao longo do tempo. Este filme, na minha perspetiva, é, essencialmente, sobre o equilibro que se encontra, tantas vezes, no desequilíbrio de uma relação.

 

Tenho duas cenas preferidas: uma, logo ao início, francamente deliciosa, que foi quando percebi que aquele ia ser um grande filme, passada num pequeno café, no campo; a outra, já na parte final do filme, quando a sua mulher (e musa) lhe prepara uma refeição. Ambas de uma suavidade atroz mas muito marcantes pelas expressões, pelo texto, pelos silêncios e, principalmente, pela mensagem subtil que ambas passam.

 

Representações fantásticas e um Daniel Day-Lewis que não desilude.

 

Até agora, foi o meu filme preferido destes Óscares.

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E vocês? Alguém já viu o filme? Gostaram?

07
Mar18

Opinião: Eu, Tonya.

CD

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Foi no passado fim-de-semana que vi o filme “Eu, Tonya”.

(Spoiler Alert: este texto tem muita informação sobre o filme.)

 

O filme conta a história de Tonya Harding, a polémica patinadora americana, que ficou conhecida pelo ataque à sua rival Nancy Kerrigan, com o objectivo de lhe partir as pernas, impedindo-a, deste modo, de competir.

 

A Tonya vem de uma família problemática, o pai saiu de casa era ela ainda muito nova, ficando a viver com a mãe – não vos consigo explicar o quanto adorei a interpretação da mãe – que passa a infância e adolescência de Tonya a maltratá-la física (segundo o filme, chegou a atirar-lhe com uma faca) e psicologicamente.

 

Por estar habituada à violência, acaba por se casar com um tipo também ele altamente violento e, de violência em violência, acaba por se tornar, também ela, uma pessoa muito agressiva.

 

Com uma carreira promissora na patinagem, dado que foi a primeira mulher americana a fazer o axel triplo, um salto com bastante dificuldade, as coisas começam a decair, devido a toda a agressividade que ela planta à sua volta.

 

Acresce o facto de Nancy ser a querida do público e Tonya ser o grande alvo a abater (elas, numa fase inicial, até eram bastante amigas). Não interessava o quão boa era Tonya a patinar, o que interessava é que ela tinha sido a escolhida para odiar.

 

Também gostei muito de terem retratado (que, na verdade, é também um dos pontos importantes na história desta Tonya e de tantas outras que se perdem pelo caminho) o facto de, por mais jeito que alguém tenha para alguma coisa, conta muito, mesmo muito, o acompanhamento e estabilidade que essa pessoa, na sua vida, tem.

 

A vencedora do Óscar de Melhor Atriz Secundária acaba por ser mesmo Allison Janney, que faz de mãe de Tonya. E que bem entregue que foi!

 

Esta história só veio dar força a um poema de António Aleixo (que uma amiga minha costuma reproduzir), que transcrevo abaixo:

"Não sou esperto nem bruto

Nem bem nem mal educado;

Sou simplesmente o produto

Do meio em que fui criado." 

António Aleixo

 

E vocês? Já viram? O que acharam?

 

02
Mar18

Quando falamos de Arte, falamos de quem?

CD

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Passei muitos anos a achar que a Arte pertencia a quem a criava. Que ingénua que eu era! Hoje em dia, já não penso assim, claro.

 

Qualquer quadro, livro ou filme, só tem valor porque mexe com quem recebe esse quadro, livro ou filme. Só existe e só permanece porque, quem recebe esse quadro, livro ou filme, se identifica e, nalgum momento, encontra um elo de ligação que os liga a si mesmo.

 

Quando falamos de Arte, fazemo-lo sempre de forma lata e colocamos a importância em que a cria. Compreendo, porque, quem a cria, tem, de facto, muita importância no processo (especialmente, no processo de criação), mas estaremos mesmo a falar do criador quando falamos de Arte? Não me parece.

 

Ela só vale porque fala para nós e, especialmente, porque fala sobre nós. Ela só tem peso porque consegue criar pontes e estreitar laços. Ela só existe porque nós existimos.

 

Portanto, quando falamos de Arte, inevitavelmente, acabamos sempre por falar de todos nós.

 

Por isso, leiam livros, vejam filmes e frequentem exposições, experimentem fusões gastronómicas improváveis e vejam catedrais. Vão descobrir mais sobre vocês do que imaginam!

 

Qual a vossa opinião?

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Biografia

Sou autora do livro infantil “Maria Bolinhos – no Reino da Maravilhosa Doçaria Alentejana” e do blog insensatez.blogs.sapo.pt. Escritora compulsiva: a minha vida é absorver tudo aquilo que vejo e tudo o que ouço. Se estão comigo há um certo risco de se tornarem inspiração da minha próxima personagem :) mas, calma!, não fujam já! Dou Workshops de Escrita Criativa a crianças e a adultos - são boas horas que sempre voam embaladas pelo fluir frenético da escrita. Devoro arte, sou constantemente inspirada por ela, nas suas mais diversas formas: livros, pintura, música, cinema, fotografia. Mas, também, jardins, praias, arestas dos prédios recortados da minha Lisboa: inspiro a luz que escorre pelas suas paredes, expiro um texto completo de incertezas. Não passo sem café, sem livros, sem as minhas viagens mas, especialmente, sem o ar livre da minha cidade, a minha maior inspiração. Tenho 32 anos, vivo em Lisboa com o meu marido e com as minhas palavras preferidas.

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