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(in)sensatez

por Catarina Duarte

(in)sensatez

por Catarina Duarte

Qui | 17.05.18

Tanta gana para depois deixarem cá tudo.

CD

A expressão “para obras totais” talvez chegue para que tenham uma ideia de como estava aquela vivenda amarela na rua do senhor Pascoal. Mas não foi, contudo, o estado de degradação das paredes (o chão, protegido pela alcatifa, até estava em relativo bom estado), das loiças antigas e partidas ou dos estores a pender, aquilo que mais me perturbou.

 

Foram os livros espalhados por todos os cantos da casa, com as suas folhas aberta e amachucadas, a roupa largada em qualquer canto como se a pressa de fugir fosse maior do que a necessidade de ficar, os móveis com as portas entreabertas e também com as gavetas entreabertas e os bibelots perdidos e empoeirados e deixados em qualquer lado, alguns tombados do cansaço da solidão.

 

Dava a ideia que tinham abandonado a vida ali.

 

E o senhor Pascoal, que muito prestavelmente me mostrou a casa, encolhia os ombros enquanto repetia: tanta gana para depois deixarem cá tudo.

 

Ele tinha razão: Tanta gana para depois deixarem cá tudo. – repeti.