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(in)sensatez

por Catarina Duarte

(in)sensatez

por Catarina Duarte

Qua | 25.04.18

Temos que estar desconfortáveis para viver.

CD

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Inicialmente, a minha ideia era referir que temos que estar desconfortáveis para escrever. Mas, depois, pensei melhor e, de facto, apesar de arriscado, devo dizer que temos que estar igualmente desconfortáveis para viver.

 

Vivemos montados na inércia. Tomamos algumas iniciativas, claro que sim, mas, genericamente, somos pouco arrojados nas nossas decisões. Damo-nos bem com o sofá que temos lá em casa, ele já está moldado ao nosso corpo, encaixa na perfeição na nossa anca larga e no nosso tronco fino, dali procuramos não sair, a menos que tenhamos fome ou vontade de ir à casa de banho.

 

Mas depois há momentos que acendem em nós aquela vontade inexplicável de realizar com rapidez, porque nos sentimos desajustados, porque estamos em ambientes estranhos, em ambientes que até nos magoam, como quando estamos sentados no chão a escrever um texto e, aos poucos, nos começa a doer as costas porque estão apoiadas na parede que é dura e fria, e depois nos dói a anca e as pernas porque estão esticadas para melhor apoiar a almofada, para melhor apoiar o caderno, e depois já não temos posição, mas a escrita avança rápida porque é só mais uma palavra, é só mais uma frase, é só mais um parágrafo, porque agora não podemos parar e temos mesmo que escrever e escrever e escrever, e as dores começam a ser pouco suportáveis, mas, ainda pior que as dores, são as ideias puderem fugir e depois, como é sempre, ser difícil encontrá-las e o prejuízo ser maior, muito maior do que uma pontada nas costas.

 

No final do texto, lá nos levantamos e seguimos para a nossa cadeira ergonómica, acendemos a luz que está montada de forma a que a sombra escorregue para o sítio certo, pois não convém que a nossa mão faça sombra na folha que pintamos, colocamos as pernas de modo a que construam um perfeito ângulo reto, de forma a que a postura fique correta e confortável, como quando estamos no nosso sofá, e seguimos fiéis à nossa inércia, escrevendo de forma alinhada, direcionada e sem erros mas remetidos à tristeza da permanente e dolorosa apatia.

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